O caderno "Fovest" dá aos vestibulandos mais uma oportunidade de enviar uma redação para análise. É bom lembrar que todos os textos serão lidos, mas apenas um terá sua correção publicada (no dia 22 de dezembro de 2009). A redação escolhida permitirá fazer observações úteis a todos os estudantes.
Desta vez, o candidato escreverá sobre o episódio recentemente ocorrido com Geisy Arruda, aluna do curso de turismo da Uniban em São Bernardo do Campo, que foi hostilizada por cerca de 700 estudantes por ter usado nas dependências da universidade um vestido considerado muito curto.
A jovem foi xingada e chegou a ser ameaçada de estupro. O tumulto só teve fim com a intervenção da polícia. Depois de colher depoimentos de alunos, professores e funcionários, a universidade decidiu expulsar a aluna Geisy, alegando "flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade", e suspender temporariamente alguns dos alunos envolvidos no episódio. A repercussão do caso na mídia levou a universidade a desistir da expulsão de Geisy _e os outros alunos tiveram a suspensão revogada.
Com base na leitura de textos publicados abaixo, que apresentam diferentes pontos de vista sobre o incidente, elabore um texto dissertativo em que faça uma reflexão sobre o ocorrido. Procure construir uma opinião com base na reflexão e desenvolva uma linha de raciocínio.
Termina no dia 4 de dezembro o prazo de envio de redações para o caderno "Fovest".
Os textos devem ser encaminhados para thais.nicoleti@grupofolha.com.br. Na barra de assunto, escreva "redação fovest 2009". A publicação da redação ocorrerá no dia 22 de dezembro, na página 6 do caderno "Fovest". (THAIS NICOLETI DE CAMARGO)
COLETÂNEA
Texto 1
Muito além de uma minissaia
Carregado de expectativas, esse pessoal vai fazer cada vez mais barulho. Tanto quanto Geisy com sua roupa
Por trás da minissaia de Geisy Arruda existe o surgimento de um novo poder no país, com especial intensidade nas regiões metropolitanas. Talvez isso explique parte da repercussão do escândalo: as classes C e D serão, muito em breve, maioria nas universidades.
A estudante apareceu no noticiário cotada para posar na revista "Playboy", participar de um anúncio de lingerie e ser a estrela principal de um filme erótico.
Os debates envolvem os mais variados temas: violência, machismo e intolerância, indicadores universitários, pedagogia. E, claro, moda: inspirou um curso de história da moda na sofisticada Casa do Saber.
Mas o que me chama atenção é o contexto em que surge Geisy: o do crescimento veloz das matrículas dos mais pobres no ensino superior. É mais veloz do que se imagina.
Com base em questionários socioeconômicos dos testes públicos, uma consultoria especializada em ensino superior (Hoper) estima que, em 2012, haverá mais alunos das classes C e D do que A e B nas universidades brasileiras.
De 2004 a 2008, a classe C produziu mais de 343 mil universitários _um crescimento no período de 84%. Na classe D, a evolução foi de mais de 333 mil, o que significa 52%.
Estamos falando aqui de 676 mil brasileiros, com altas expectativas. ‘Para a maioria deles, a faculdade é uma espécie de porta da esperança. Muitos são os primeiros a entrar no ensino superior em toda a família‘, afirma Ryon Braga, diretor da Hoper, que realiza frequentes pesquisas qualitativas para entender o que pensa e sente esses brasileiros.
São indivíduos que, em geral, vêm das escolas públicas, têm ainda maiores carências educacionais e baixo repertório cultural. Mas têm a força dos sobreviventes.
A Uniban pode estar muito longe do topo de qualidade de ensino, mas Geisy, ao ser expulsa, transmitiu a sensação de que tinha perdido uma chance de futuro, embora nem seu curso se destaque nos rankings do MEC nem ela tenha demonstrado ser uma aluna aplicada.
Ela se celebrizou pelos dotes físicos, mas quem ouviu com atenção suas entrevistas viu que soube defender com propriedade seus direitos _é a esperteza de quem junta capacidade de articulação com as dificuldades cotidianas.
Entre os mais pobres, dissemina-se a percepção correta de que cada ano de escolaridade corresponde a um salário menor e uma chance mais reduzida de desemprego.
Somem-se o aumento de renda da classe C, a queda no valor das mensalidades e programas como o ProUni para se entender essa mudança na paisagem humana.
O mercado está cada vez mais de olho nesses movimentos. Formado em administração, Caio Romano criou uma empresa de marketing (Mundo Universitário) para fazer a ponte entre as empresas e os campi. Ele percebe que, nos últimos anos, as empresas se mostram muito interessadas _algumas até de mais_ em exibir seus produtos em uma escola povoada por estudantes da classe C e D. "É alguém que, em breve, será em maior número e terá mais dinheiro do bolso", afirma Caio.
Por isso, mais publicitários tentam entender e focar seus projetos nesse público. "Um universitário, por mais pobre que seja, aumenta seu padrão de consumo ao tomar contato com mais informações."
Tenho testemunhado, há vários anos, como eles, em geral, demonstram mais garra do que os mais ricos, dispondo-se a trabalhar de noite e estudar de dia. Saem perdendo não só por causa do baixo repertório educacional e cultural, mas especialmente pela falta de uma rede de contatos. Como já comentei, muitos dos que conseguem entrar nas melhores faculdades públicas e enfrentar suas deficiências apresentam desempenho melhor do que a média.
Carregado de expectativas, esse pessoal vai fazer cada vez mais barulho. Tanto quanto Geisy com sua minissaia.
PS - O papel da sociedade é cobrar cada vez mais qualidade das faculdades. Mas cuidado com o preconceito: o ensino superior, mesmo do jeito que está, é uma evolução na paisagem social. É melhor mais quatro anos de escolaridade numa faculdade ruim do que apenas o diploma de ensino médio. Coloquei em meu site (www.dimenstein.com.br) mais detalhes sobre a evolução das classes C e D nas universidades brasileiras.
(Gilberto Dimenstein- Folha de S.Paulo 15.11.09)
Texto 2
Mais que uma saia justa
Não se fala de outra coisa: a saia justa na Uniban quando a estudante Geisy Arruda, 20, foi agredida verbalmente, acuada, xingada e ameaçada de estupro por usar um minivestido. A primeira reação da universidade não poderia ser mais cinto de castidade, ao expulsar a aluna por "flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade". Pressionada, a universidade teve que revogar a decisão.
O mais impressionante nessa discussão foi a reação de muitas mulheres que condenaram veementemente o uso da minissaia, esquecendo que essa peça é exatamente o símbolo da liberação feminina nos anos 1960.
Se hoje as mulheres podem frequentar uma universidade, algo se deve à redução do tecido das saias. Como bem ressaltou uma amiga, ao dizer que foi a aluna que causou a situação, temos o mesmo raciocínio machista que culpa a vítima de estupro por "provocar" o estuprador.
As mulheres continuam sendo as maiores algozes delas mesmas, assim como os gays. Quando um viado apanha na rua de uma gangue, as bichinhas são as primeiras a proclamar: "Com certeza devia estar mexendo com os bofes". Como se isso fosse algo tão condenável. Pensando dessa forma, as minorias permanecerão servas voluntárias por muito tempo. Contra isso, viva a minissaia de Geisy!
(Vitor Angelo - Revista da Folha - 15.11.09)
Texto 3
"Foi constatado que a atitude provocativa da aluna, no dia 22 de outubro, buscou chamar a atenção para si por conta de gestos e modos de se expressar, o que resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar."
(...)
"A Uniban reafirma seu compromisso com a responsabilidade social e a promoção dos valores que regem uma instituição de ensino superior, expressando sua posição de apoio aos seus 60 mil alunos injustamente aviltados. Nesse sentido, cabe aqui registrar o estranhamento da Uniban diante do comportamento da mídia, que, uma vez mais, perde a oportunidade de contribuir para um debate sério e equilibrado sobre temas fundamentais como ética, juventude e universidade."
(8.11.09 - trechos do Informe Publicitário divulgado pela Uniban após a decisão de expulsar a estudante da universidade)
Texto 4
Culpar a vítima: essa foi a estratégia
Culpe a vítima. Essa foi a estratégia utilizada pela Uniban para, vá lá, "reduzir os danos" provocados pelo ‘affaire‘ Geisy. Acho que não chamaram ninguém do Departamento de Marketing para a reunião que definiu a expulsão. Nem da Pedagogia, nem o professor de Ética (se é que têm um).
Chamaram apenas alguém do Jurídico, o qual concluiu que a agora ex-aluna violou o artigo 215 e seguintes do Regimento Interno da universidade, ao usar "trajes inadequados" e fazer ‘percursos maiores que o habitual‘.
Não é preciso pós-graduação em astrologia para perceber que o impacto da decisão não é dos mais auspiciosos para a universidade.
Conseguiram transformar o que já era um pesadelo de relações públicas naquilo que o pessoal das Letras Clássicas chamaria de "defaecatio maxima" _e que o pudor que faltou aos dirigentes da instituição me impede de traduzir.
A provável ação indenizatória que Geisy moverá contra a escola acaba de ter seu valor majorado. A Uniban também deve ter perdido potenciais candidatos a estudante. Eu, pelo menos, pensaria várias vezes antes de matricular meus filhos numa faculdade que busca proteger um bando de arruaceiros atacando o elo mais fraco.
A estratégia de culpar a vítima é bem conhecida. Se uma garota foi estuprada, ela é pelo menos parcialmente responsável por seu destino: de alguma forma, provocou o estuprador, seja por utilizar roupas insinuantes, seja por meio de atitudes libidinosas. Afinal, nada acontece "de graça".
A psicologia explica tal atitude como um autoengano que visa a nos manter em posição de controle: se eu não me comportar "mal" como a "vítima", não estou sujeito ao mesmo risco. Tal operação mental nos permite persistir na crença de que o mundo é um lugar justo. Não é, como a Uniban acaba de demonstrar exemplarmente.
(Hélio Schwartsman - Folha de S. Paulo - 8.11.09)
Texto 5
"Tudo tem limites. A loira provocante foi expulsa e terá agora o direito e a oportunidade de mostrar seu corpo como quiser e onde quiser, mas fora da escola. Foi um final feliz para todos, inclusive para a Uniban, que agiu corretamente e deu uma aula grátis aos que se interessam por aprender."
(Gilberto Dib - SP - Folha de S.Paulo - Painel do Leitor -9.11.09)
Texto 6
Os linchadores da Uniban
A notícia da expulsão de Geisy Arruda pela Uniban é estarrecedora. O informe divulgado ontem pela direção da universidade, por meio do qual a aluna ficou sabendo da decisão, é um panfleto obscurantista que requer análise. Ele transforma a incitação ao estupro de uma jovem acossada na universidade por algumas centenas de marmanjos em "reação coletiva de defesa do ambiente escolar".
Eis o que conclui a ‘sindicância‘ da Uniban: "Foi constatado que a atitude provocativa da aluna buscou chamar a atenção para si por conta de gestos e modos de se expressar, o que resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar". Geisy, diz a nota, ensejou ‘de forma explícita os apelos dos alunos‘ e foi expulsa por "flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade". O título do informe agrega ao conteúdo um toque de humor negro: "A educação se faz com atitude e não com complacência".
De que educação falam esses farsantes? Devemos chamar essa fábrica de açougueiros de instituição de ensino? Que princípio ético ou dignidade acadêmica podem sobreviver a uma escola que pune a vítima humilhada para respaldar a brutalidade e a covardia de uma turba excitada com a própria fúria?
Como se sentirão agora as garotas que estudam na Uniban? Estarão os rapazes liberados pela direção a agir sempre assim em defesa do "ambiente escolar"?
As cenas são conhecidas: ‘Pu-ta!, pu-ta!‘, "vamos estuprar!", "solta ela, professor!". Um aluno chutou a maçaneta da porta da sala em que a moça estava encurralada; outros tentaram colocar o celular entre suas pernas para fotografá-la.
A Uniban invoca um zelo pedagógico que não tem para satisfazer a vontade fascista da maioria e preservar os negócios. Com sua decisão, ela deu chancela institucional aos atos de barbárie praticados em suas dependências. Mais do que isso: ao linchar Geisy, a universidade consuma o serviço que os alunos haviam deixado pela metade.
(Fernando de Barros e Silva -Folha de S. Paulo - 9.11.09)
Texto 7
"A sociedade só parece ser mais democrática", afirma Miriam Abramovay, pesquisadora da Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana, um organismo internacional de cooperação técnica.
"Na verdade, ela continua sendo um lugar muito conservador e muito machista", disse a socióloga à Folha. "Mesmo com os avanços dos direitos femininos em 40 anos", constatou a estudiosa.
Para Abramovay, neste contexto, a visão machista tradicional surge de forma muito forte. "Existe um pensamento entre os homens de que o mundo está dividido entre santas e putas. De que o espaço [de convívio social] tem que ser quase sacrossanto", afirma a pesquisadora.
Uma das pioneiras no estudo da questão feminina no país, Heleieth Saffioti, professora aposentada da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Araraquara, concorda com as observações da colega.
"O fato surgiu de um nicho de conservadorismo, que não é normal no Brasil. Não acredito que a sociedade toda seja assim, mas nem no inverso", afirmou a professora.
A violência vista nos corredores da Uniban tem uma origem na vida doméstica, diz ela.
Avanço?
"A cada 15 segundos uma mulher é espancada no país. É muito para o meu gosto. A sociedade civilizada, em vez da patriarcal como temos, tem que resolver isso na conversa", disse Saffioti.
Para a professora, o fato suscita outro debate: o conceito de modernidade social. "Acentuar o papel da mulher como objeto é um avanço ou queremos outra coisa?", indaga.
(Folha de S. Paulo - 10.11.09 - trecho de reportagem)
Escrito por Equipe Fovest às 20h10